A nova onda de ataques contra migrantes na África do Sul voltou a expor uma ferida que há anos preocupa o continente africano: a xenofobia. Relatos de agressões, perseguições e intimidações contra cidadãos estrangeiros, sobretudo africanos, reacendem um debate que parece não ter fim.
Perante este cenário, surge uma questão inevitável: estarão alguns sul-africanos a colocar a sua identidade nacional acima do espírito de unidade africana? Enquanto países como Angola, Moçambique, Ruanda, Namíbia e República Democrática do Congo acolhem cidadãos de diferentes nacionalidades, a África do Sul continua a ser frequentemente associada a episódios de hostilidade contra migrantes.
A situação tem gerado indignação em vários pontos do continente. Muitos africanos veem estes actos como uma contradição aos ideais de solidariedade e fraternidade que marcaram a luta contra o apartheid. Não por acaso, cresce entre alguns cidadãos africanos o sentimento de desilusão em relação ao país que um dia simbolizou a resistência, a reconciliação e a esperança.
Também chama a atenção o silêncio de várias instituições internacionais e continentais. A ausência de posicionamentos mais firmes por parte de organismos regionais levanta dúvidas sobre a capacidade de resposta diante de situações que ameaçam a integração africana.
Esta não é a África do Sul sonhada por figuras como Nelson Mandela. A liberdade conquistada com tanto sacrifício deveria servir para unir povos e não para criar barreiras entre africanos. Os migrantes que vivem e trabalham naquele país não procuram caridade; procuram oportunidades, dignidade e uma vida melhor.
A África do futuro não pode ser construída sobre o medo, a intolerância e a violência. O continente precisa de reforçar os valores da convivência, do respeito mútuo e da solidariedade entre os seus povos. Afinal, antes de sermos angolanos, moçambicanos, congoleses ou sul-africanos, somos africanos.
